terça-feira, 29 de novembro de 2011

Álcool x Violência doméstica

Li essa reportagem esses dias que tem tudo a ver com o tema do nosso blog e achei muito interessante. Vou colocar ela aqui na íntegra.

“Novo estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), feito com 7 mil famílias em 108 cidades do Brasil, comprova que o álcool funciona como "combustível" da violência doméstica. Nas entrevistas feitas durante um ano, os pesquisadores identificaram que em quase metade das agressões que acontecem dentro de casa (49,8%) o autor das surras estava embriagado. A relação entre bebida alcoólica e maus-tratos já era considerada pelos especialistas, mas a evidência científica foi comprovada nacionalmente só com o ensaio científico.

"Ele tomava seus goles de pinga e virava monstro, me batia na frente de qualquer um. Não respeitou nem quando estava grávida. Tenho as marcas em todo corpo", diz Maria, hoje com 52 anos, moradora da periferia da zona sul de São Paulo, que apanhou do marido por três décadas, sempre calada. Nunca denunciou o companheiro - nem quando a rede de delegacias da mulher foi criada. "E no hospital, sempre inventava uma desculpa diferente para meus machucados. Uma hora caía da escada, outra inventava que escorregava no banheiro", diz ela, que não sabe explicar porque tolerou as surras durante tanto tempo. "Primeiramente, era amor. Depois, não sei."

A tolerância à agressão também é decifrada pela associação entre violência e álcool, afirma o autor da pesquisa da Unifesp, o psicólogo Arilton Fonseca. "É muito mais fácil perdoar quando o agressor bebeu. A vítima considera o álcool o culpado e não o violentador. Acredita que, quando sóbrio, a rotina de violência cessa." No mesmo estudo, foi evidenciado que violência impulsionada pela bebida alcoólica persiste, na maioria das vezes, por mais de 10 anos.

Outro aspecto revelado na pesquisa é que, apesar de mais frequentes os casos nas classes sociais mais baixas, o poder aquisitivo não imuniza o problema. Dos agressores bêbados, 33% eram de classe média e 17%, de classe alta. "A violência caseira é democrática. Mas a exposição do problema não", avalia a subsecretária nacional de enfrentamento da violência da mulher, Aparecida Gonçalves. "Mulheres de classe A e B dificilmente vão à delegacia e conseguem maquiar as marcas da violência. Viajam para esconder o olho roxo, procuram serviços particulares, que são blindados dentre os números públicos."

Nos dados do Disque-Denúncia 180 - que recebe ligações de todo País sobre violência doméstica, foi apurado que 48,7% das vítimas agredidas não dependem economicamente do agressor, o que, para Aparecida Gonçalves, mostra que o dinheiro não é fator principal e exclusivo para que o ciclo de agressão seja perpetuado.

A estudante de enfermagem Sandra, de 36 anos, que sempre morou em casas de classe média e atualmente está na Água Rasa, zona leste da capital paulista, é uma das faces que mostra a "democracia" da agressão doméstica. "Durante o primeiro ano de casamento, meu marido nunca encostou o dedo em mim, mas depois não consigo lembrar de um fim de semana que fiquei sem apanhar", conta. Ainda que a sessão violenta acontecesse mesmo quando o marido estava sóbrio, se o álcool fosse mais um componente, "a violência aumentava e ficava mais cruel".

A explicação para o álcool servir como impulso para as agressões, que não ficam restritas às mulheres e chegam aos filhos também, é fisiológica, explica o pesquisador do Departamento de Medicina Legal da Universidade de São Paulo (USP), Gabriel Andreuccetti. Segundo ele, a bebida etílica chega ao cérebro, aguça o sistema nervoso simpático, rebaixa a crítica e aumenta a agressividade. A ressalva dos especialistas é que tanto violência doméstica quanto consumo de bebidas alcoólicas são fenômenos complexos. No geral, um funciona como fósforo aceso dentro de um barril de pólvora do outro. "Por isso, a minha proposta é fazer maior diálogo entre o serviço de atendimento de dependência e o serviço de violência", diz o pesquisador da Unifesp. ‘Hoje, um caminha isolado do outro, o que permite que violência e álcool andem sempre juntos.’”

Reportagem retirada de: ARANDA, Fernanda. Álcool move violência doméstica. O Estado de S. Paulo, 15 de junho de 2009. Disponível em : < http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,alcool-move-violencia-domestica,387275,0.htm>. Acesso em: 29 nov. 2011.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

As mulheres ficam bêbadas mais rápido do que os homens?

Ao contrário do que muita gente pensa, é verdade que as mulheres ficam bêbadas mais rápido do que os homens. Ou seja, se uma mulher e um homem, ambos com mesmo peso corpóreo, ingerirem a mesma quantidade de álcool, a mulher apresentará maior nível alcoólico no sangue do que o homem. Isso se deve ao fato de que o metabolismo das mulheres é diferente do dos homens.

As mulheres possuem mais tecido adiposo (gordura) e menos água no organismo do que os homens. Isso faz com que o álcool no sangue das mulheres seja menos diluído e, por conseqüência, a concentração de álcool no sangue delas seja maior. Além disso, as mulheres possuem um padrão enzimático diferente do dos homens. Elas tendem a possuir uma quantidade menor da enzima desidrogenase alcoólica, que é crucial para o metabolismo do álcool por ser uma das responsáveis pela sua quebra e neutralização no estômago antes dele entrar na corrente sanguínea.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Metabolismo do Álcool

Olá pessoal,

Vimos muitas coisas no blog esse semestre, né? Várias coisas em relação ao álcool, tanto coisas positivas quanto negativas. Vimos os efeitos dele no organismo, os malefícios da ingestão quando se está grávida, as doenças causadas por ele. Agora que já sabemos um pouco disso tudo, irei mostrar a vocês como ocorre o metabolismo do etanol propriamente dito.

Quando ingerimos álcool, principalmente em teores elevados, sentimos ele “subir rápido”, certo? Tal fato acontece porque ao ser absorvido no intestino (a maior parte) o etanol difunde-se através das membranas, chegando a todas as células (inclusive nas cerebrais). Mas apesar de o etanol chegar a todos os tecidos, seu principal destino é o fígado, pois é lá que ele é metabolizado e oxidado.

No fígado, o etanol é oxidado pela enzima álcool desidrogenase formando acetaldeído, depois oxidado pela acetaldeído desidrogenase, formando acetato. Da seguinte forma:

Não sei se vocês já ouviram falar, principalmente do MHL, que existem 4 tipos de fontes energéticas: o carboidrato, a proteína, o lipídio e o álcool (siiiim!!!). E vocês sabem o por que do álcool ser considerado uma fonte energética? Tal fato ocorre pois tanto a oxidação do carboidrato, proteína e lipídio, quanto a oxidação do etanol, originam o mesmo produto: Acetil-CoA e NADH.

Porém, (sempre tem um porém, neh?), o álcool fornece conteúdo calórico apenas quando ingerido eventualmente e em pequenas quantidades. E, sim, quando você for a um nutricionista, você tem que informá-lo, também, da “cervejinha” que você toma para que ele possa computar e calcular, juntamente com os nutrientes ingeridos (carboidrato, proteína e lipídio) as calorias totais da sua dieta.

Ok, mas e quando eu bebo em maior quantidade? Bom, primeiramente, já digo que o conteúdo energético que antes era aproveitado, agora não é mais. O que acontece é que uma outra via é ativada e é ela que é responsável pela dependência e a tolerância alcoólica.

O organismo em situação normal tem maior quantidade de NAD+, porém com a ingestão do etanol e sua oxidação, tem-se uma maior liberação de NADH. O problema é que o NADH impossibilita a gliconeogênese feita a partir de aminoácidos, porque ao invés de produzir piruvato a partir de lactato, faz a reação inversa devido à enzima lactato desidrogenase. Portanto, não tem glicose feita a partir de piruvato.

O problema todo é que, em geral, ingerimos bebida alcoólica sem comer algo junto. Com isso, quando consumimos a nossa reserva de glicogênio podemos apresentar o quadro de hiperglicemia, que pode evoluir para o coma alcoólico.

Outra coisa é que com mais lactato (ácido lático) tem-se uma maior acidose. Com a maior concentração de Acetil-CoA mitocondrial(devido à oxidação do etanol) e a baixa glicemia (devido à não ingestão de nutriente), ocasiona o surgimento de corpos cetônicos (cetose) que agrava o quadro de acidose.

Além disso, a concentração dos ácidos graxos é aumentada, o que leva a um quadro de estateose, acúmulo de lipídios no fígado, iniciando uma hapatopatia alcoólica que evolui para a famosa cirrose hepática. O próprio aumento de acetaldeído que decorre da oxidação do etanol, é tóxico ao organismo pois inativa proteínas.

Por fim, (quanta coisa acontece!) quando bebemos muito outra via é ativada (aquela da dependência e tolerância), chamada via do citocromo P450. Por utilizar oxigênio, há o surgimento de radicais livres. Além disso, há o consumo de NADPH, que causa dano em um antioxidante (a glutationa) provocando uma reação imune que está relacionada à doença hepática causada pelo alcolismo.

Portanto, quando bebemos, inativamos a gliconeogênese, o ciclo de Krebs e o ciclo de Lynen. Provocamos diversos efeitos no nosso organismo que são maléficos a médio e longo prazo (como as doenças hepáticas).

Bom pessoal, é isso. Espero que tenham entendido um pouco mais sobre o álcool e seus efeitos no organismo.


Referência Bibliográfica:

- Marzzoco, A. & Baptista, B., Bioquímica Básica, 3ª edição, Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2007. (Pg: 199 e 200)